Terça-feira, 31.05.11

# 45

Apesar de já ter ultrapassado os 70, G.G. falava como se tivesse idade para se encher de mimo.
Tentou passar parte desse mimo para o filho único que, no entanto, sempre o rejeitou. Assim que pôde, deixou a casa dos pais, para grande desgosto de G.G.

Foi costureira a vida toda, no tempo em que as camisas ainda eram feitas por medida e gabava-se de ter sido mestra.

Talvez por isso, achava que o mundo era feito à sua medida e ficou revoltada quando o marido morreu.

Tinha então cerca de 60 anos e decidiu reformar-se.

Fechou-se em casa.

De vez em quando, passava uns dias em casa do filho, mas sempre com grandes conflitos com a nora.

À noite, tinha dificuldade em dormir e começou a sentir a invasão dos espíritos. Só podiam ser espíritos. Entravam-lhe pelos pés, punham-na a tremer, arrepiavam-na toda e, eventualmente, acabavam por sair pelos cabelos.

Gostava que eu a fosse consultar lá a casa, não por que não pudesse deslocar-se, mas porque não gostava de sair de casa. Tinha medo dos espíritos mas sentia-lhes a falta...

Naquele dia, no entanto, não estava em casa quando lá fui.

Explicou-me depois que fora para casa do filho durante uns dias, porque a nora "foi liquidar as trompas".

Assassinos!...
publicado por artur às 21:36 | link do post | comentar
Quarta-feira, 18.05.11

# 44

Que estava muito triste, que não lhe apetecia viver, que, lhe desse, agora mesmo, um AVC, não se importaria nada.

 

Sentia-se assim desde que abandonara o lar, deixando o marido e a filha. Aquela vida já não lhe interessava e, além disso, tinha conhecido o homem da sua vida.

 

Foi viver com ele.

 

Com ele e com a mulher e as suas duas filhas.

 

Espantado, perguntei-lhe como era possível estar a viver com o amante, a sua mulher e as filhas de ambos.

 

Respondeu-me, com naturalidade, que ela não sabia de nada.

 

Trabalha de noite... - esclareceu.

 

Depois de ela sair para trabalhar, eu vou para o pé dele; depois, quando ela está quase a chegar, volto para o sofá da sala.

 

Novas organizações familiares, não há dúvida.

publicado por artur às 21:58 | link do post | comentar
Sábado, 14.05.11

# 43

Entrou de rompante no gabinete de consulta.

 

Esclareceu que ia àquela consulta de urgência porque estava preocupado com as borbulhas que tinha na testa.

 

Constatei que eram três ou quatro pápulas sem importância que, talvez devido a muita coceira e às características específicas da péle de algumas pessoas de origem africana, tinham já um aspecto cicatrical.

 

Não me deixou falar e deu logo a sua interpretação da coisa:

 

"Eu acho que isto é dos chatos!"

 

Perante a mina expressão de espanto, esclareceu:

 

"É que eu tive relações com uma miúda, sem camisa, e fiquei com a pila inchada; mostrei ao meu irmão e ele disse-me que eram chatos! Depois, cocei a testa e fiquei com estas bobrbulhas!"

 

Sacanas dos chatos... a tomarem o lugar dos piolhos...

publicado por artur às 14:26 | link do post | comentar
Terça-feira, 03.05.11

# 42

O boné de pala e a T-shirt encardida, com o anúncio estampado ao Café Central, seriam suficientes para o classificar: era popular.

 

Todos o conheciam e à sua verve.

 

Gostava de palavras difíceis, de sete mil e quinhentos, como costumava dizer, no tempo do escudo.

 

Nos tempos livres, que eram muitos, lia A Bola - daí o gosto pelas palavras difíceis.

 

Nunca dizia bola, preferia esférico.

 

Nunca dizia jogo ou desafio, preferia prélio.

 

Mas, por vezes, as palavras difíceis tornavam-se complicadas, sobretudo desde que a patroa adoecera com uma neoplasia.

 

Desconsolado, dizia que ela tinha metáforas no fígado...

publicado por artur às 19:24 | link do post | comentar

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  • Mais refinado, agora. E até estuda Direito!
  • Este eu também conheci!Grande cromo.

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