Segunda-feira, 22.11.10

# 39

Tinha crises de pânico desde os 30 anos.

 

Incapaz de lidar com elas e incapaz de fazer uma medicação regular, recorria à ajuda do pai.

 

Como era distribuidor de mercadorias, percorria o país de lés a lés, conduzindo uma carrinha comercial. E o pai, recém-reformado, ia com ele.

 

Com o pai sentado no banco a seu lado, sentia-se seguro e o pânico abrandava.

 

Andou nessa vida cerca de 6 anos até que conheceu a que viria a ser sua mulher.

 

Foi ela quem lhe acalmou os nervos e o obrigou a uma medicação mais regular.

 

As crises de pânico melhoraram.

 

Prescindiu da companhia do pai.

 

Arranjou um emprego melhor, como motorista de transportes públicos de longo curso.

 

Certo dia, entre Setúbal e Almada, as cólicas abdominais eram tão intensas que julgou que não conseguiria aguentar as fezes.

 

Lá chegou a uma estação de serviço, pediu desculpa aos passageiros e foi aliviar-se.

 

Foi quando começaram as diarreias.

 

Agora, antes de iniciar cada percurso tem que ir meia dúzia de vezes à casa de banho e já as conhece todas, ao longo de todas as carreiras.

 

publicado por artur às 18:14 | link do post | comentar
Terça-feira, 16.11.10

# 38

Estava muito melhor das costas. Sem dúvida.

 

Nunca mais tinha tido dores, como aquelas que a deixavam de rastos.

 

E todas as melhoras se deviam à enxada.

 

Desde que ficara viúva que passara ela a tomar conta da horta. Era ela que cavava e plantava as batatas e o feijão verde e as alfaces.

 

Não há melhor exercício do que cavar, anunciava, toda fresca, apesar dos quase 80 anos.

 

Mas arrancar ervas é que era mais complicado. Ali, agachada, horas seguidas…

 

Decidiu contratar um homem, que lhe pediu 50 euros e, que depois de algum choradinho, baixou para 40.

 

O homem foi no dia seguinte e ela aproveitou para fazer umas compras.

 

Quando regressou a casa, estava o homem sentado à sombra da figueira. Que estava cansado, disse. E que tinha fome, acrescentou.

 

Ela preparou-lhe uma sandes com ovo mexido e outra com presunto e queijo, que o homem empurrou com a ajuda de uma mini que estava perdida lá no frigorífico.

 

Quando acabou de comer, o homem continuava cansado. Disse que voltava no dia seguinte para acabar o trabalho, mas que ela lhe tinha que pagar mais 20 euros.

 

Quer dizer: os 50, que baixou para os 40, passavam agora a ser 60!

 

Não, muito obrigado – arranco eu o resto das ervas, exclamou ela.

 

E arrancou, toda curvada e sem sinal de dores nas costas!

 

Depois, juntou as ervas todas num monte e pegou-lhes fogo.

 

Veio a autoridade e multou-a: 120 euros por estar a fazer uma queimada não autorizada!

 

Afinal, dos 40 euros que pensava gastar, acabou por desembolsar 160!

 

Agora, assim que aparece uma erva, arranca-a logo pela raiz!

 

O exercício só faz é bem…

publicado por artur às 18:03 | link do post | comentar
Segunda-feira, 15.11.10

# 37

Andava muito preocupada com a falta de memória.

 

Queria uns comprimidos para a cabeça.

 

Ainda agora, está a ver, doutor? Vinha para lhe mostrar as analises e deixei-as na mesa do café onde estive a tomar o pequeno-almoço!

 

Isso acontece a qualquer pessoa, digo eu.

 

Pois, mas comigo as coisas têm vindo a piorar...

 

No outro dia, convidei uma amiga minha para almoçar e perguntei-lhe se ela gostava de bacalhau com grão.

 

Disse-me que sim e ficou combinado.

 

E almoçámos bem.

 

E só quando estava a lavar os pratos é que percebi que eles não tinham aquela goma própria do bacalhau: tínhamos almoçado só grão com batatas e feijão verde. Não cheguei a tirar o bacalhau do congelador!

 

E a sua amiga não disse nada?

 

Não - ela ainda está pior do que eu!...

publicado por artur às 19:21 | link do post | comentar
Quinta-feira, 11.11.10

# 36

Católico fervoroso, rezava o terço todas as tardes.

 

Quando vinha à consulta, queixava-se sempre de disfunção eréctil.

 

Contradições... ou talvez não...

publicado por artur às 19:03 | link do post | comentar
Terça-feira, 09.11.10

# 35

Era grande e bem constituído.

 

Cenho sempre cerrado e boné com a pala a ensombrar ainda mais os óculos escuros, espelhados.

 

Assustava.

 

Numa rixa, há anos, tinha levado uma facada na boca.

 

Tiveram que fazer laringuectomia e cortar-lhe um pedaço da língua.

 

Desde então, custava-lhe muito dizer os éles. E não só.

 

Então, preferia escrever.

 

Quando vinha à consulta, trazia uma lista das queixas, escrita num caderno. Colocava-o sobre a secretária, virado para mim e dizia vamos lá a ver isto.

 

E eu ia.

 

Que remédio...

publicado por artur às 18:18 | link do post | comentar

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  • Já tinha saudades, Sr. Doutor. Obrigado.
  • Mais refinado, agora. E até estuda Direito!
  • Este eu também conheci!Grande cromo.

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