Quinta-feira, 30.09.10

# 33

Tinha uma doença tão esquisita que ainda não havia nome para ela.

 

Conseguiu, por isso, ser reformada por invalidez antes dos 40 anos.

 

Sentia dores nas articulações, nos músculos, nos ossos.

 

Dores que a impediam de fazer qualquer tipo de esforço, a não ser apanhar a camioneta e ir para a praia, torrar ao sol.

 

Dores que a faziam arrastar-se até ao Centro Comercial, onde passava tardes a olhar para as montras.

 

Só muito mais tarde lhe deram um nome à sua doença e o nome era fibromialgia.

 

Piorou muito.

 

O nome da doença impunha respeito e mais invalidez.

 

Passou a ir às danças de salão apenas três vezes por semana, mas não desistiu das sevilhanas.

 

Parece que lhe fazia bem aos calcanhares.

publicado por artur às 19:37 | link do post | comentar
Quarta-feira, 15.09.10

# 32

Tinha nome de matemático grego e era a confusão em pessoa.

 

Quando jovem, parece que foi segurança de alguns políticos, mas não é certo que tenha sido assim.

 

Vivido e viajado, parece que passou alguns anos nos países escandinavos, mas também pode não ter sido exactamente assim.

 

Vivido e viajado, teve muitas namoradas e a certa altura apanhou uma doença venérea, tendo estado internado algures na Suécia, mas também pode não ter sido assim.

 

Nesse hospital, muito avançado para a época, serviu de cobaia para um novo medicamento no tratamento das doenças venéreas. Foi graças a esse medicamento que ficou assim, confuso. Ou talvez não.

 

Cada vez mais desconfiado, comprou um apartamento sem dizer nada à sua mulher, não fosse ela querer envenená-lo e ele ter que se refugiar num local seguro. Ou não.

 

Cada vez mais confuso, trazia, no outro dia, cinco embalagens de cinco genéricos do ramipril, de cinco laboratórios diferentes.

 

Garantiu-me que não estava a tomar todos ao mesmo tempo.

 

Ou estaria?

publicado por artur às 19:23 | link do post | comentar
Sexta-feira, 03.09.10

# 31

Era técnico de manutenção.

 

Tinha a seu cargo válvulas de segurança, bombas de sucção, manómetros e tubagens várias.

 

Desde novo que se preocupava com o seu aparelho urinário.

 

Apesar das ecografias renais normais e das análises de urina inocentes, afirmava que a sua urina tinha um depósito permanente, com pequenas partículas que ele esmagava entre os dedos.

 

Não eram as uroculturas negativas e os exsudados uretrais estéreis que o impediam de sentir ardor a urinar, urgência, polaquiúria e toda a panóplia de sintomas, que aumentaram consideravelmente com o advento do Google.

 

O fluxo urinário também o preocupava: tinha dificuldade em iniciar a micção, o fluxo era fraco, interrompia-se, gotejava.

 

E também havia a glande e o sulco balano-prepucial que tinham sempre qualquer coisa: manchas, minúsculas borbulhas, glândulas sebáceas entupidas, saliências e reentrâncias, comichões e descamações.

 

Tudo isto implicava cremes hidratantes com um ph específico e exames complementares frequentes.

 

E todos normais, claro.

 

Mas, se calhar, ele é que tinha razão.

 

Afinal de contas, era ele o técnico em tubagens.

publicado por artur às 20:42 | link do post | comentar

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  • Já tinha saudades, Sr. Doutor. Obrigado.
  • Mais refinado, agora. E até estuda Direito!
  • Este eu também conheci!Grande cromo.

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