Quinta-feira, 26.08.10

# 30

Qunado era encarregado na fábrica, todos o detestavam. Mal encarado, mal disposto, intransigente, intolerante.

 

Depois do enfarto, foi reformado por invalidez e fechou-se em casa, a sarrazinar a mulher.

 

Ao fim de alguns anos, a mulher começou a fazer-se de surda, de distraída, até de demente. Perguntava-lhe o que queres para o almoço? Ele respondia carapaus. Ela fazia-lhe bifanas.

 

Ele bufava e queria tratar a mulher, para que a mulher o tratasse melhor.

 

Levou-a a um neurologista, que a medicou para o Alzheimer e ela foi ficando cada vez mais tola.

 

E ele cada vez mais só.

 

Mal encarado e mal disposto.

publicado por artur às 19:32 | link do post | comentar
Terça-feira, 17.08.10

# 29

Desde que teve aquele herpes zooster na testa que começou a atribuir significados estranhos a coisas simples.

 

Aquelas pedras, no chão, a caminho de casa - quem as lá teria posto?

 

E aqueles ruídos da madeira a estalar durante a noite - qual seria o objectivo?

 

Já no que respeita àquelas sombras, mesmo à porta de casa, não tinha dúvida que queriam dizer alguma coisa.

 

Desde que o herpes lhe enchera a testa de pequenas vesículas que o seu pensamento nunca mais ficou descansado. Sentia uma coisa a passear por ali, pelo couro cabeludo, uma coisa que era difícil de explicar.

 

Vivia sozinho, com uma filha deficiente e, pela primeira vez, começou a pensar que as coisas são como são porque há forças superiores, que nos controlam e dominam e condicionam.

 

Suspeito que já oiça vozes, mas ainda não acredita nelas.

publicado por artur às 16:39 | link do post | comentar
Segunda-feira, 16.08.10

# 28

M.I. usava sempre uma bata azul escura com florinhas brancas e falava, falava, falava sem parar.

 

O cabelo em desalinho e dois únicos dentes, um em cada maxilar e uma capacidade inverosímil para falar.

 

O marido morrera há muitos anos. Ficaram uma filha e um filho, ambos na casa dos 40, ambos solteirões e um velho pai, de quem herdou a necessidade de lavar as mãos dezenas de vezes por dia.

 

O pai raramente falava. Passava os dias calado, sentado no sofá, com um xaile pelas pernas e os olhos baços vagueando, como se seguissem uma mosca imaginária.

 

Mas ela falava pelos dois.

 

Quando começava a contar uma história era impossível saber quando iria terminar. Tinha a faculdade de entrelaçar as histórias umas nas outras e de transformar os pequenos episódios do dia-a-dia em histórias com vários capítulos.

 

Uma das suas favoritas era a históra da placa dentária, do dentista que a fez e da mãe dele.

 

E também havia a do chapéu do pai, e a da brotoeja provocada pelas silvas, e da namorada do filho que era galdéria, e a do patrão da filha que não a largava, e a do bacio onde o pai cuspia, mesmo durante as refeições, e a do emprego do filho que era uma miséria, e ela falava, falava, falava sem parar.

 

O pai de M.I. acabou por morrer, já perto do centenário e os filhos não vão aguentar muito mais tempo.

 

M.I. acaba a falar sozinha.

 

 

 

 

publicado por artur às 15:22 | link do post | comentar
Quarta-feira, 11.08.10

# 27

No que diz respeito à vida sexual, F. experimentou um deserto dos 20 aos 40 anos.

 

O primeiro marido era pouco imaginativo, nada apelativo e completamente desinspirado no que tocava ao sexo.

 

E não tocava no sexo.

 

E ela queixava-se de falta de líbido, de incapacidade orgasmática, de desilusão sexual.

 

Isto por outras palavras, está bem de ver.

 

Aos 40 anos teve coragem.

 

Mudou de marido.

 

Agora queixa-se do contrário.

 

Uma dor nas ancas é porque teve relações de pé, uma dor nas coxas é porque esteve de gatas muito tempo, a ter relações por trás, queixa-se depois do sexo oral, do vaginal e do anal, queixa-se sempre muito, sempre se queixou...

 

Mas está muito mais feliz.

publicado por artur às 13:56 | link do post | comentar
Segunda-feira, 09.08.10

# 26

M.L. tinha três filhos.

 

O mais velho era deficiente. Aos 14 anos, um vizinho que era mecânico levou-o para ajudar na oficina. Serviu de moço de recados, alvo de troça, escravo suave, mas manteve-se na oficina e, com quase 40 anos, é lá que o podemos ver, fazendo coisas que outros aprendizes não são capazes.

 

O filho do meio deu para o torto logo aos 16 anos: viu-se metido numa rixa e levou uma facada no tórax. Aos 18 anos já fazia parte de um gangue que assaltava lojas de desporto. Roubavam os ténis de marca, que depois vendiam a metade do preço. Foi apanhado e esteve preso oito anos por associação criminosa e furto.

 

A filha mais nova engravidou aos 14 e aos 16 anos. Dois rapazes. Depois, tornou-se toxicodependente, prostituiu-se, traficou e foi apanhada. Presa, os dois filhos ficaram cada um com sua avó.

 

O filho que ficou com a avó paterna, parece que tem tido uma adolescência banal.

 

O filho que ficou com M.L. já foi apanhado a roubar, aos 13 anos e foi institucionalizado.

 

E M.L. é como tantas outras!...

publicado por artur às 15:09 | link do post | comentar
Sexta-feira, 06.08.10

# 25

Quando estava doente, J. contactava com o seu guia espiritual e pedia-lhe ajuda.

 

O problema era que o seu guia tinha morrido já há muitos anos.

 

Mas J. não se atrapalhava. Com o tempo, tinha desenvolvido uma espécie de capacidade mediúnica e conseguia falar com ele.

 

E então ele dizia-lhe, por exemplo, vai ter com o teu médico e diz-lhe que deve ser da bexiga.

 

Ele ia ao médico e explicava que andava com dificuldade em iniciar a micção, ardor a urinar e outras queixas urinárias.

 

E não é que o médico, entre outras coisas, lhe pedia mesmo uma ecografia da bexiga?! Claro que isso dava credibilidade ao guia.

 

Passou a consultá-lo mais amiúde, não só para ele, mas também para alguns familiares, vizinhos e amigos.

 

Quando descobriu um alto na virilha, que desaparecia quando se deitava, comunicou com o guia que lhe disse que era uma hérnia.

 

O médico confirmou.

 

Quando viu as pequenas vesículas todas alinhadas, acompanhadas de dor intensa, na região intercostal, falou com o guia que lhe disse tratar-se de zona.

 

O médico confirmou.

 

A pouco e pouco, passou a consultar o guia, em vez do médico, até que deixou de ir ao médico.

 

É por isso que não sei como acabou esta história.

publicado por artur às 17:48 | link do post | comentar
Quinta-feira, 05.08.10

# 24

Trabalhou 20 anos na construção naval e o ruído destruiu-lhe a audição.

 

Era um tipo fechado, de poucas falas e estava casado com uma gorducha que falava, falava sem parar.

 

A surdez progressiva isolava-o cada vez mais e a mulher espicaçava-o porque ele não respondia, não participava nas conversas da família, não ligava à televisão, não saía, não tinha amigos.

 

O médico do trabalho propô-lo para a reforma por doença profissional.

 

Veio para casa, reformado e fechou-se ainda mais.

 

Os "sonotones" que usava ajudavam um pouco, mas precisava de ambientes calmos. Se existissem muito ruídos em redor, não conseguia distinguir os sons, começava com tonturas, entrava em pânico, tinha que sair dali para fora.

 

E, em casa, a mulher massacrava-o, azucrinava-lhe o juízo.

 

Já não a podia aturar mais. A voz dela era um punhal a perfurar-lhe os tímpanos fibrosados. Por isso, assim que entrava em casa, desligava as próteses auditivas

 

Foi por isso que não a ouviu gritar.

 

Muito menos ouviu o som da nuca dela a embater no balcão da cozinha.

publicado por artur às 17:24 | link do post | comentar
Quarta-feira, 04.08.10

# 23

Era motorista de transportes públicos e adormecia ao volante.

 

Bastava parar o autocarro numa paragem onde tivessem mais passageiros para descer ou subir, que ele começava logo a cabecear e a fechar os olhos. Eram os passageiros que o acordavam.

 

A meio da noite, acordava sobressaltado e ficava com dificuldade em respirar.

 

Crises de pânico, disse-lhe eu.

 

Começou a adormecer em andamento. Certo dia, raspou o autocarro no separador central de uma via rápida, até que ele se imobilizou, entre a gritaria dos passageiros.

 

Foi ao médico da empresa. Fez exames. Apneia do sono, foi o veredicto.

 

Fez cirurgia do palato mole e começou a dormir com ventilação respiratória. Reformaram-no.

 

Deixou de acordar a meio da noite, com falta de ar, acabou por desistir do aparelho que o ajudava a respirar e candidatou-se a segurança, que a reforma era pequena.

 

Teve que frequentar um curso de formação, mas a sala de aulas era muito pequena e ele sentia-se sufocar.

 

Clautrofobia, repeti-lhe.

 

Voltou a ser operado. Adenoidectomia e correcção do septo nasal.

 

Nunca mais sentiu falta de ar mas começou com as diarreias.

 

No meio da caminhada diária que lhe aconselharam, a cólica surgia inopinadamente e tinha que ser ali. Corria para o baldio mais próximo e aliviava-se.

 

Crises de pânico, insisti.

 

Aceitou.

 

Vai melhorando.

publicado por artur às 17:27 | link do post | comentar
Terça-feira, 03.08.10

# 22

Era vê-la, sempre a correr de um lado para o outro, sempre muito apressada.

 

Magra, muito seca, sempre com um saquinho de plástico na mão, onde guarda o porta-moedas, um lenço com flores roxas e as chaves de casa.

 

Fora casada com um homem, que a ignorava, mas que gostava muito de olhar para as outras mulheres, sobretudo para uma vizinha, que ele espreitava pela janela da casa de banho.

 

G. sentia-se revoltada e mal amada mas não ficou melhor quando ele morreu.

 

Ficou sozinha com a sogra, com uma demência progressiva.

 

A sogra já não se lembrava de quem era e gostava de ecolálias.

 

Dá cá, dá, dá cá, repetia. Que foi, que foi, que foi, perguntava à exaustão.

 

E G. a correr, de casa para a retrosaria que tinha há décadas, da retrosaria para a farmácia, para comprar fraldas para a sogra, da farmácia para casa, onde a velhota repetia onde está, onde está, onde está.

 

Mas G. não ficou melhor depois da morte da sogra.

 

Continuou a correr e começou a criar rituais.

 

Sem ninguém para cuidar, começou a ter que verificar  seis vezes se o gás estava fechado, cinco vezes se a torneira da cozinha não estava a pingar, sete vezes se a porta da rua estava trancada.

 

E continua a correr, de casa para a loja, onde deita bainhas abaixo, sobe bainhas de saias e passaja peúgas do século passado.

 

G. só vai parar um dia.

publicado por artur às 18:51 | link do post | comentar

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  • Já tinha saudades, Sr. Doutor. Obrigado.
  • Mais refinado, agora. E até estuda Direito!
  • Este eu também conheci!Grande cromo.

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