Domingo, 11.07.10

# 8

N. recebia informações do Além. Não sabia como, mas recebia.

 

Se fosse mais nova, dizia, ia aperfeiçoar este dom; agora, aos 80 anos, não valia a pena.

 

Quando jovem, o barco onde seguia naufragou e salvou-se seguindo as instruções de uma Voz. Agarrou-se a uma tábua e a corrente levou-a a bom porto. Nem sequer sabia nadar.

 

Mais tarde, descobriu o dom. Os sofrimentos dos outros passavam para ela. Bastava tocar em alguém com uma dor de cabeça para ficar, ela própria, com dor de cabeça, enquanto o outro ficava bem.

 

Por vezes tinha crises em que dava urros de sofrimento. Só muito tempo depois descobria que alguém que conhecia estava a sofrer e, de algum modo, esse sofrimento estava a transferir-se para ela.

 

Andava sempre de alto muito alto.

publicado por artur às 16:00 | link do post | comentar

# 7

J.S. tinha sido torneiro-mecânico e continuava a gostar de fazer objectos de metal que, depois, nunca usava.

 

Ameaçado por um monstro imaginário, forrou o quarto com panos pretos e colocou holofotes potentes nos quatro cantos do aposento, para ofuscar o bicho. Depois, seria fácil atingi-lo com um tubo de ferro.

 

Nos tempos livres, gravava cassetes com trechos musicais interpretados por grandes orquestras. Ray Coniff, Valdo de Los Rios. Colocava o microfone junto ao altifalante do rádio e gravava pedaços das músicas. Tinha tudo catalogado.

 

Está acamado há 10 anos e não sabe quem é.

publicado por artur às 15:55 | link do post | comentar

# 6

F.N. tinha dois filhos quase trintões, ambos com passado toxicodependente.

 

Safaram-se. Ambos emigraram e, hoje em dia, são pessoas respeitáveis. Um deles, até se tornou um escultor muito apreciado no país para onde emigrou e onde casou.

 

F.N. recorda os tempos em que fugia de casa para ler. Escondia-se para ler. Escondia-se do marido e da sogra. Quando era apanhada, levava. Ler era um desperdício, com tanta coisa para fazer no campo.

 

Um dia, despediu-se do filho de 5 meses e atirou-se a um poço. Foi salva por um pastor de cabras.

 

Era um dia de nevoeiro.

publicado por artur às 15:39 | link do post | comentar

# 5

J. fazia musculação há mais de 20 anos e até participara em concursos de Mr. Músculo.

 

Trabalhava com máquinas pesadas numa lixeira municipal.

 

Nos tempos livres, ouvia música clássica. Preferia Wagner, orquestras dirigidas por Von Carajan e só ouvia gravações da Deutsche Grammophone.

 

Idolatrava os alemães e já falava razoávelmente a sua língua.

 

Agora, anda a estudar Direito.

publicado por artur às 12:00 | link do post | comentar | ver comentários (2)

# 4

LF era motorista de transportes públicos e praticava artes marciais. Várias.

 

Sempre foi um tipo inquieto, de mal com a vida, de mal com ele próprio.

 

Era um eterno trabalhador-estudante. Com 40 anos, ainda não tinha acabado o 12º.

 

Na última consulta, a propósito da sua rinite, citou-me Nietzsche e Shoppenhauer.

publicado por artur às 11:55 | link do post | comentar

# 3

ML estava quase a chegar aos 90 anos e continuava amarga.

 

Tinha um filho, mas não falava com ele. Foi filho do pecado. Teve um marido, mas morreu novo. Teve outro marido, que já fora seu namorado, antes do primeiro casamento, mas também já morreu. Era ele o pai do seu filho.

 

Era do PCP e odiava o Mário Soares.

 

Não queria ser cremada, quero ser enterrada porque sou muito católica, dizia.

 

E acrescentava, com convicção, sou a favor da forca e da tanásia!

publicado por artur às 11:51 | link do post | comentar

# 2

J.A. era um revoltado.

 

Culpava os políticos de direita - que eram todos, menos os do PCP - de tudo o que lhe corria mal, desde a reforma exígua aos níveis de glicémia.

 

Exaltava-se com a mais pequena coisa e, se pudesse, teria feito a revolução sozinho, embora eu suspeite que, à última hora, não fosse capaz.

 

Estava sempre a escrever uma carta para enviar à Assembleia da República, a descompor os deputados, a propósito disto ou daquilo.

 

Tenho quase a certeza de que nunca enviou nenhuma.

publicado por artur às 11:48 | link do post | comentar

# 1

R. era taxista de dia e operário à noite, ou vice-versa. Conforme os turnos.

 

Foi o único operário que eu conheci que já tinha feito um lifting - e estávamos nos anos 80 do século passado.

 

Uma vez, quiz oferecer-me um carro. Achava que não era digno um médico andar de Fiat Uno.

 

Não chegou a dar-me carro nenhum. Suspirei de alívio.

 

Outra vez levou uma sova por causa de qualquer coisa relacionada com droga. Ficou sem um olho.

 

Acabou assassinado, com um tiro, dentro do seu próprio táxi.

publicado por artur às 11:39 | link do post | comentar

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  • Já tinha saudades, Sr. Doutor. Obrigado.
  • Mais refinado, agora. E até estuda Direito!
  • Este eu também conheci!Grande cromo.

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