Sábado, 31.07.10

# 21

Nunca teve jeito para nada, sobretudo para trabalhar.

 

Era conflituoso e intolerante, explodindo com facilidade. Rastilho curto.

 

Achava que todos eram incompetentes, que tudo estava mal organizado, que o mundo inteiro estava contra ele.

 

Começou por trabalhar no comércio, vendendo roupa num armazém popular.

 

Desistiu. Não tolerava o patrão, os horários, os clientes.

 

Trabalhou depois numa empresa de mudanças, mas era trabalho pesado. Que mania, as pessoas viverem em andares altos, em prédios com escadas estreitas! Que mania, os móveis serem tão pesados!

 

Tentou mais coisas, sempre sem resultado.

 

Foi guarda de uma garagem, mas eram muitas horas fechado. Foi guarda de um parque de campismo, mas eram muitas horas ao sol. Foi porteiro, mas eram muitas horas sentado. Foi segurança, mas eram muitas horas em pé.

 

Zangado e num impulso, decidiu enforcar-se.

 

Também para isso não teve jeito. O nó ficou lasso, a corda não aguentou o seu peso.

 

Ficou apenas com o hematoma no pescoço.

 

E desempregado.

 

 

publicado por artur às 16:50 | link do post | comentar
Sexta-feira, 30.07.10

# 20

Aos 65 anos, D. reformou-se por limite de idade, depois de meio século de descontos como torneiro mecânico.

 

Ficou preocupado.

 

Não se estava a ver a ficar em casa com a mulher, com quem casara há mais de 40 anos. Gosto muito da minha princesa, dizia, mas só algumas horas por dia...

 

Passear o cão e adormecer no sofá ao som da televisão, não era para ele.

 

Encontrou a solução, tornando-se engraxador do centro comercial local. Ele próprio se propôs, e foi aceite, pela administração; ele próprio fez a cadeira de engraxador, onde exerce; ele próprio desenha os cartões de boas festas que distribui pelos clientes, todos os natais; ele próprio criou o personagem do engraxador, com a camisola às riscas azuis e brancas e o chapéu de marinheiro, fazendo lembrar os antigos marinheiros dos cacilheiros.

 

E agora, aos 76 anos, ainda o podem ver, todos os dias úteis, no Almada Fórum.

publicado por artur às 15:45 | link do post | comentar
Quinta-feira, 29.07.10

# 19

Não conseguiu acabar a instrução primária, mal sabia ler e escrever e exprimia-se com muita dificuldade, com um vocabulário limitado e com dificuldade na articulação de muitas palavras.

 

Talvez por isso, F. era um solitário e introvertido empregado da Câmara, trabalhando na recolha do lixo.

 

Na varanda da sua casa, acumulavam-se os mais diversos objectos que ele encontrava no lixo e que recolhia, fazendo assim uma estranha e variada colecção.

 

F. raramente olhava para uma pessoa de frente, caminhava sempre com a cabeça baixa e tinha um ar até um pouco assustador, mas não fazia mal a ninguém.

 

Só se descontraía quando corria. E corria bem. Três vezes por semana, treinava durante mais de uma hora e aos domingos participava nas provas organizadas pelos clubes populares e pelas autarquias.

 

A correr, F. era outra pessoa.

 

Já muito depois dos 40, F. conheceu uma cinquentona quase analfabeta, como ele.

 

D. tinha mais dez anos que F. e um passado de doença psiquiátrica, com diversos internamentos.

 

Juntaram os trapinhos, para espanto de muita gente.

 

D. tinha mais dificuldade do que F. em articular muitas palavras, e os neurolépticos ainda lhe entaramelavam mais a língua.

 

F. não se importava.

 

Quem precisa de conversa?...

 

publicado por artur às 10:05 | link do post | comentar
Domingo, 25.07.10

# 18

Filha de pai incógnito e de mãe alcoólica, viveu uma infância de privações.

 

Muitas tareias, muito trabalho, muita fome.

 

Assim que os seios começaram a despontar, foi entregue a um patrão, a quem serviu, também no sentido bíblico.

 

Ninguém falava em pedofilia naqueles tempos e naqueles lugares.

 

Muitas sevícias e muita fome depois, conseguiu fugir para a cidade.

 

Talvez se tenha prostituído.

 

Finalmente, encontrou um homem bom, que lhe deu cama, mesa e roupa lavada.

 

E carinho.

 

Engordou para lá dos 100 quilos.

 

Diz-me: passei muita fominha, por isso, pode mandar-me fazer tudo, menos dieta.

publicado por artur às 12:44 | link do post | comentar
Sábado, 24.07.10

# 17

Dada a achaques desde muito jovem, costumava dizer que tinha nascido para ser rica; por isso, qualquer contrariedade da vida era vivida como uma grande desgraça.

 

Incapaz de gerir a frustração, reagia da única maneira que sabia: adoecendo.

 

E adoeceu muitas vezes, ao longo da vida.

 

Quando a filha contraiu dívidas formidáveis, que a família não podia comportar, adoeceu muito.

 

De tal modo que foi preciso que um tio afastado assumisse as dívidas para que ela melhorasse.

 

Mas quando a filha apareceu grávida, sem que se conhecesse pai para  a criança, ela adoeceu definitivamente e acamou.

 

A filha teve que se desempregar para cuidar dela.

 

Cá se fazem...

publicado por artur às 13:11 | link do post | comentar
Quinta-feira, 22.07.10

# 16

Cabelo bem puxado para trás, com um toque de Brylcream, faces vermelhuscas e nariz saliente, barriga espetada e andar de pinguim - eis F.L. em toda a sua plenitude.

 

Apesar de ter um valor de triglicéridos de assustar qualquer um, F.L. não dispensa os domingos em família, com almoçaradas que se prolongam até ao jantar, sempre bem regadas por branco fresquinho ou verde borbulhante ou tinto carrascão.

 

E as aguardentes macias, que escorregam tão bem - quem lhes resiste?

 

F.L. não consegue, nem quer, resistir a nada disso.

 

E depois, tudo o puxa para isso: as quintas-feira na caça às rolas terminam sempre em formidáveis patuscadas. Já que não se caça nada, come-se e bebe-se à fartazana.

 

F.L. é um cromo popular - tão popular que tem como passatempo, criar manjericos.

 

E tem um segredo para a sua longevidade, apesar das besanas, dos triglicéridos e da barriga proeminente: bebe, todos os dias, em jejum, há mais de 50 anos, um copo de água com uma collher de sopa de água oxigenada.

 

Então o nosso corpo não se alimenta de oxigénio? não é ele essencial para a vida?

 

F.L. confia a sua vida à água oxigenada e tem recortes de jornais que confirmam a sua teoria.

 

Até ver...

 

 

publicado por artur às 16:20 | link do post | comentar
Quarta-feira, 21.07.10

# 15

Era devoto da Nossa Senhora e adepto do vinho branco gelado com açúcar.

 

Aos 50 anos, deixara crescer a barriga, deixara subir a tensão arterial e o colesterol e era muito provável que já fosse diabético.

 

Certo dia foi visitar uns primos emigrados em França e surgiu a oportunidade de cumprir o seu sonho: ir a Lourdes.

 

Foi.

 

A pé.

 

Cerca de 20 quilómetros, ida e volta, sob um calor infernal.

 

A meio caminho, sentiu-se mal.

 

Uma dor no peito, que descia pelo braço esquerdo até à mão.

 

Mas aguentou. Era a sua penitência.

 

Quando regressou a casa dos primos, esgotado, descalçou-se, preparou um copo generoso de vinho branco gelado, juntou-lhe duas colheres de açúcar, sentou-se no sofá da sala e morreu.

publicado por artur às 18:09 | link do post | comentar
Terça-feira, 20.07.10

# 14

G. era sempre o centro das atenções, sobretudo no que dizia respeito às doenças.

 

Ninguém, nunca, estava mais doente do que ela.

 

Ela tinha o colesterol mais alto, as artroses mais marcadas, as tendinites mais dolorosas, a gastrite mais resistente.

 

E era perita em comparações exóticas.

 

Uma dor na anca era como se lhe estivessem a arrancar a cabeça do fémur, uma cefaleia era como se lhe estivessem a abrir a cabeça e a martelarem-lhe lá dentro, uma farfalheira era como se fossem gemidos das almas do outro mundo numa sessão espírita.

 

E, no entanto, ultrapassados já os 70 anos, mantinha-se com bom aspecto, autónoma, lúcida, com mobilidade apreciável.

 

O marido, pelo contrário, tinha uma artrose do joelho que quase o impedia de andar, mas a dela é que doía.

 

O marido acabou por ter que ser operado e, na sequência, fez retenção urinária e insuficiência renal aguda, mas a ela é que lhe ardia a urinar.

 

O homem safou-se mas ela garante que não se vai safar.

 

Há-de acabar por morrer saudável.

publicado por artur às 11:57 | link do post | comentar
Segunda-feira, 19.07.10

# 13

Aos 26 anos, A.P. estava reformada por invalidez.

 

Doença psiquiátrica, disse a junta médica.

 

Era o tempo em que se conseguiam reformas por invalidez com alguma facilidade.

 

E sempre houve gente que não se importa de ser apelidada de maluqinha, desde que isso proporcione uma reformazita.

 

Era pouco mas dava para os alfinetes, que o pai concedia o resto.

 

Boa vida em troca de dependência.

 

Nos 30 anos seguintes, foi uma serva do pai, fazendo apenas o que ele queria que fizesse.

 

Enfim, nem tudo. Casou-se com o homem errado.

 

Claro que qualquer homem, que não o pai, seria sempre errado e o pai não descansou enquanto esse homem não desapareceu de cena.

 

Ficou uma neta que, assim que compreendeu o esquema familiar, passou ela a dominar.

 

Agora, que o patriarca da família morreu, é ela quem manda na vida de A.P.

 

Afinal, a junta médica tinha razão: só alguém com doença psiquiátrica atura uma vida destas...

 

 

publicado por artur às 13:36 | link do post | comentar
Sábado, 17.07.10

# 12

H. tinha um apelido diminutivo e um corpo superlativo: 144 quilos mal distribuídos por um metro e setenta e cinco.

 

Tudo o que lhe acontecia era "derivado aos nervos".

 

Derivado aos nervos - e para não bater nos opositores - era frequente dar socos nas paredes, o que lhe proporciou algumas fracturas dos metacarpos.

 

O seu corpo era tão imponente que, certo dia, ao tomar banho na praia, deixou-se enrolar por uma onda e, ao cair, fracturou a clavícula.

 

Casou-se com uma moça magrinha que, meia dúzia de anos depois, já era quase tão gorda quanto ele.

 

Teve dois filhos que, em dois ou três anos, eram já bons exemplos de obesidade infantil.

 

Mas era uma família muito unida.

 

Ninguém via um deles, sem que os outros três viessem logo atrás.

 

Quando chegavam a casa, não podiam ir todos no mesmo elevador.

publicado por artur às 14:11 | link do post | comentar

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  • Já tinha saudades, Sr. Doutor. Obrigado.
  • Mais refinado, agora. E até estuda Direito!
  • Este eu também conheci!Grande cromo.

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