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  <title>Gente que eu conheci</title>
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  <description>Gente que eu conheci - SAPO Blogs</description>
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  <pubDate>Thu, 02 Feb 2012 19:26:25 GMT</pubDate>
  <title># 49</title>
  <author>artur</author>
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  <description>&lt;p&gt;Recebi este bilhete, que me deixou perplexo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&quot;Pedir ao doutor que me passe um medicamento para evitar a ressonância, que tenho alturas que me afeta muito. Se não for possível, uma almofada, mas que resulte. Ou então, em último caso, uns tampões para a mulher pôr nos ouvidos durante a noite porque não consegue dormir ao meu lado. Os tampões têm que ser adequados para tal fim.&quot;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O autor do bilhete não estava presente. Soube, pela filha, que estava a passar uns tempos no Alentejo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Confesso que fiquei sem saber o que fazer.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Como se sabe, medicamentos para evitar a ressonância, não existem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Quanto a almofadas que resultem, também estamos conversados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;br /&gt;No que respeita a almofadas, o Simposium Terapêutico é um deserto. Dezenas de antibióticos, muitos cremes e pomadas, drogas para quase todas as maleitas - mas nada de almofadas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Restavam os tampões.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Adequados para tal fim, claro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;br /&gt;O doente sugeria que eles fossem introduzidos nos ouvidos da mulher, de modo a ela não ouvir a ressonância.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Mas havia outra hipótese: introduzir os tampões nas narinas do ressonador e tapar-lhe a boquinha com a almofada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&lt;br /&gt;Resultaria?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Thu, 20 Oct 2011 20:03:28 GMT</pubDate>
  <title># 48</title>
  <author>artur</author>
  <link>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/12519.html</link>
  <description>&lt;div class=&quot;entry&quot;&gt;
&lt;p&gt;O Sr. Armindo andava com uma tosse que o tirava do sério.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dizia ele que a malvada era tão intensa que quase lhe apetecia dar um tiro na cabeça.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não conseguia dormir, urinava-se todo, evitava andar de transportes públicos para não assustar os companheiros de viagem, fugia de salas de espera e até ao pé da mulher e da filha se sentia incomodado por estar sempre a tossir.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pensei que podia ser efeito secundário do inibidor do enzima de conversão, que muitas vezes provoca tosse e mudei-lhe para outro anti-hipertensor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sem resultado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Claro que não valia a pena experimentar anti-tússicos e anti-histamínicos. Isso já o Sr. Armindo tinha tentado, também sem resultado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pensei depois em refluxo gastro-esofágico que, em algumas situações provoca tosse e prescrevi-lhe um inibidor da bomba de protões.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sem resultado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desisti.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ontem, o Sr. Rodrigues voltou à consulta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sem tosse.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E informou-me que tinha resolvido o problema com uma receita caseira. Um chá.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Exigi que me fornecesse a receita milagrosa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Palavras dele: «250 gramas de açúcar mascavado, uma cerveja preta, das pequenas, uma laranja e três folhas de ôcalitro».&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Bastaram duas colheres desse chá ao deitar, durante cinco dias, e a tosse desapareceu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O segredo, claro, está no ôcalitro…&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 23 Aug 2011 20:01:32 GMT</pubDate>
  <title># 47</title>
  <author>artur</author>
  <link>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/12169.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Tinha sido um homem da vida, dizia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A certa altura, teve uma revelação: deixou tudo e passou a viver numa carrinha.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E passou a frequentar uma igreja pentecostal, fértil em milagres.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Garantia que Jesus Cristo já o tinha curado de um cancro nos rins e de um cancro na &quot;próspera&quot;.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tudo graças a muita oração.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E por que razão ia ao médico, se Jesus Cristo o curava de tudo e mais alguma coisa?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pois ele ia ao médico para ter provas das curas milagrosas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A técnica era esta: ia a uma consulta de urgência, queixando-se de uma dor excruciante, digamos, num joelho. O médico, perante tanto sofrimento, acabava por lhe pedir um raio xis ao joelho.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Alguns dias depois, já com o raio xis na mão, voltava à urgência, onde era atendido por outro médico.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Este, ao ver o raio xis, dizia-lhe que estava tudo bem e ele elevava as mãos aos céus e bradava Milagre!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com seguidores destes, não há igreja que resista...&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Sun, 31 Jul 2011 17:21:37 GMT</pubDate>
  <title># 46</title>
  <author>artur</author>
  <link>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/11923.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Na alimentação, sou radical - disse, peremptório. Nunca me afasto da minhas regras!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;De manhã, como sempre uma maçã, uma banana e mamão, explicou. Por volta do meio dia, como qualquer coisa com pão. Às 2 da tarde, almoço. À noite, só como sopa. E bebo quatro copos de água por dia. Nem mais, nem menos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E, pelos vistos, o sr. Duarte dava-se bem com essa dieta. Com 86 anos, não tomava nenhum comprimido e raramente estava doente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas hoje, sr. Duarte, por que razão vem à consulta?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Estou com uma diarreia tramada, disse.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ontem comi uma pizza, concluiu com ar triste...&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 31 May 2011 20:36:01 GMT</pubDate>
  <title># 45</title>
  <author>artur</author>
  <link>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/11600.html</link>
  <description>&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Arial; font-size: small;&quot;&gt;Apesar de já ter ultrapassado os 70, G.G. falava como se tivesse idade para se encher de mimo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Arial; font-size: small;&quot;&gt;Tentou passar parte desse mimo para o filho único que, no entanto, sempre o rejeitou. Assim que pôde, deixou a casa dos pais, para grande desgosto de G.G.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Arial; font-size: small;&quot;&gt;Foi costureira a vida toda, no tempo em que as camisas ainda eram feitas por medida e gabava-se de ter sido mestra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Arial;&quot;&gt;Talvez por isso, achava que o mundo era feito à sua medida&lt;/span&gt; &lt;span style=&quot;font-family: Arial;&quot;&gt;e ficou revoltada quando o marido morreu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Arial; font-size: small;&quot;&gt;Tinha então cerca de 60 anos e decidiu reformar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Arial; font-size: small;&quot;&gt;Fechou-se em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Arial; font-size: small;&quot;&gt;De vez em quando, passava uns dias em casa do filho, mas sempre com grandes conflitos com a nora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Arial; font-size: small;&quot;&gt;À noite, tinha dificuldade em dormir e começou a sentir a invasão dos espíritos. Só podiam ser espíritos. Entravam-lhe pelos pés, punham-na a tremer, arrepiavam-na toda e, eventualmente, acabavam por sair pelos cabelos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Arial; font-size: small;&quot;&gt;Gostava que eu a fosse consultar lá a casa, não por que não pudesse deslocar-se, mas porque não gostava de sair de casa. Tinha medo dos espíritos mas sentia-lhes a falta...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Arial; font-size: small;&quot;&gt;Naquele dia, no entanto, não estava em casa quando lá fui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Arial; font-size: small;&quot;&gt;Explicou-me depois que fora para casa do filho durante uns dias, porque a nora &quot;foi liquidar as trompas&quot;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;
&lt;div&gt;&lt;span style=&quot;font-family: Arial; font-size: small;&quot;&gt;Assassinos!...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;</description>
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  <pubDate>Wed, 18 May 2011 20:58:49 GMT</pubDate>
  <title># 44</title>
  <author>artur</author>
  <link>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/11484.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Que estava muito triste, que não lhe apetecia viver, que, lhe desse, agora mesmo, um AVC, não se importaria nada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sentia-se assim desde que abandonara o lar, deixando o marido e a filha. Aquela vida já não lhe interessava e, além disso, tinha conhecido o homem da sua vida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Foi viver com ele.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com ele e com a mulher e as suas duas filhas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Espantado, perguntei-lhe como era possível estar a viver com o amante, a &lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt;sua mulher&lt;/span&gt; e as&lt;span style=&quot;font-size: small;&quot;&gt; filhas de ambos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Respondeu-me, com naturalidade, que ela não sabia de nada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Trabalha de noite... - esclareceu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Depois de ela sair para trabalhar, eu vou para o pé dele; depois, quando ela está quase a chegar, volto para o sofá da sala.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Novas organizações familiares, não há dúvida.&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Sat, 14 May 2011 13:26:47 GMT</pubDate>
  <title># 43</title>
  <author>artur</author>
  <link>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/11216.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Entrou de rompante no gabinete de consulta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Esclareceu que ia àquela consulta de urgência porque estava preocupado com as borbulhas que tinha na testa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Constatei que eram três ou quatro pápulas sem importância que, talvez devido a muita coceira e às características específicas da péle de algumas pessoas de origem africana, tinham já um aspecto cicatrical.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não me deixou falar e deu logo a sua interpretação da coisa:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&quot;Eu acho que isto é dos chatos!&quot;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Perante a mina expressão de espanto, esclareceu:&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;&quot;É que eu tive relações com uma miúda, sem camisa, e fiquei com a pila inchada; mostrei ao meu irmão e ele disse-me que eram chatos! Depois, cocei a testa e fiquei com estas bobrbulhas!&quot;&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sacanas dos chatos... a tomarem o lugar dos piolhos...&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 03 May 2011 18:24:17 GMT</pubDate>
  <title># 42</title>
  <author>artur</author>
  <link>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/10938.html</link>
  <description>&lt;p&gt;O boné de pala e a T-shirt encardida, com o anúncio estampado ao Café Central, seriam suficientes para o classificar: era popular.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Todos o conheciam e à sua verve.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Gostava de palavras difíceis, de sete mil e quinhentos, como costumava dizer, no tempo do escudo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nos tempos livres, que eram muitos, lia A Bola - daí o gosto pelas palavras difíceis.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nunca dizia bola, preferia esférico.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nunca dizia jogo ou desafio, preferia prélio.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas, por vezes, as palavras difíceis tornavam-se complicadas, sobretudo desde que a patroa adoecera com uma neoplasia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desconsolado, dizia que ela tinha metáforas no fígado...&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 07 Feb 2011 19:03:42 GMT</pubDate>
  <title># 41</title>
  <author>artur</author>
  <link>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/10621.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Tinha pouco mais de 30 anos, era tímido e não tinha namorada há alguns anos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Veio queixar-se de algo inesperado: sempre que se masturbava à noite, não conseguia dormir depois.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Incrédulo, estive quase para lhe sugerir que se masturbasse só de manhã, mas confesso que tentei ignorar o sintoma e integrá-lo num panorama mais vasto de astenia, sintomas depressivos e tal e coisa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mediquei com ampolas bebíveis.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O placebo do costume.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Voltou passado um mês.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tinha piorado: agora, sempre que se masturbava, ficava duas noites sem dormir.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Meio a brincar, sugeri-lhe uma namorada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Riu-se.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E depois, não ficaria todas as noites sem dormir?...&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 07 Feb 2011 18:50:53 GMT</pubDate>
  <title># 40</title>
  <author>artur</author>
  <link>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/10378.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Pesava 150 quilos e o seu grande sonho era colocar uma banda gástrica.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Inscreveu-se em várias consultas de obesidade mas era-lhe difícil seguir as regras: ou faltava à consulta de Psicologia, ou não fazia todas as análises que lhe eram solicitadas ou, se conseguia ultrapassar essas fases, acabava por faltar à consulta de Anestesia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas assim que desistia de uma consulta, conseguia mover influências e meter as cunhas certas para se inscrever noutra consulta.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Meteu também uma cunha ao Divino.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Foi a Fátima e fez uma promessa, caso conseguisse levar uma consulta de Obesidade até ao fim, isto é, até à banda gástrica.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a promessa consistia em tatuar, a toda a largura das suas imensas costas, o Santuário de Fátima, tal e qual como aparece nos postais ilustrados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Demorou meses a deixar-se tatuar, ao mesmo tempo que frequentava mais uma consulta de Obesidade.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando a tatuagem ficou pronta, todos se admiraram.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O santuário estava tal e qual: escadarias, pináculos, janelinhas, tudo com um realismo impressionante.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O homem que o tatuara era um verdadeiro artista e ele podia orgulhar-se de ter, agora, o Santuário representado nas suas costas e, como as suas costas eram vastas, quase que se podia dizer que o Santuário estava com o seu tamanho natural.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E finalmente, foi operado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dois meses depois, tinha perdido 40 quilos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E, nas suas costas, o Santuário de Fátima não passava de uma ermida engelhada...&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 22 Nov 2010 18:14:59 GMT</pubDate>
  <title># 39</title>
  <author>artur</author>
  <link>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/10178.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Tinha crises de pânico desde os 30 anos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Incapaz de lidar com elas e incapaz de fazer uma medicação regular, recorria à ajuda do pai.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Como era distribuidor de mercadorias, percorria o país de lés a lés, conduzindo uma carrinha comercial. E o pai, recém-reformado, ia com ele.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com o pai sentado no banco a seu lado, sentia-se seguro e o pânico abrandava.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Andou nessa vida cerca de 6 anos até que conheceu a que viria a ser sua mulher.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Foi ela quem lhe acalmou os nervos e o obrigou a uma medicação mais regular.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;As crises de pânico melhoraram.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Prescindiu da companhia do pai.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Arranjou um emprego melhor, como motorista de transportes públicos de longo curso.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Certo dia, entre Setúbal e Almada, as cólicas abdominais eram tão intensas que julgou que não conseguiria aguentar as fezes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Lá chegou a uma estação de serviço, pediu desculpa aos passageiros e foi aliviar-se.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Foi quando começaram as diarreias.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Agora, antes de iniciar cada percurso tem que ir meia dúzia de vezes à casa de banho e já as conhece todas, ao longo de todas as carreiras.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 16 Nov 2010 18:03:39 GMT</pubDate>
  <title># 38</title>
  <author>artur</author>
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  <description>&lt;div class=&quot;entry&quot;&gt;
&lt;p&gt;Estava muito melhor das costas. Sem dúvida.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nunca mais tinha tido dores, como aquelas que a deixavam de rastos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E todas as melhoras se deviam à enxada.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desde que ficara viúva que passara ela a tomar conta da horta. Era  ela que cavava e plantava as batatas e o feijão verde e as alfaces.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não há melhor exercício do que cavar, anunciava, toda fresca, apesar dos quase 80 anos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas arrancar ervas é que era mais complicado. Ali, agachada, horas seguidas…&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Decidiu contratar um homem, que lhe pediu 50 euros e, que depois de algum choradinho, baixou para 40.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O homem foi no dia seguinte e ela aproveitou para fazer umas compras.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando regressou a casa, estava o homem sentado à sombra da figueira. Que estava cansado, disse. E que tinha fome, acrescentou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ela preparou-lhe uma sandes com ovo mexido e outra com presunto e  queijo, que o homem empurrou com a ajuda de uma mini que estava perdida  lá no frigorífico.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando acabou de comer, o homem continuava cansado. Disse que voltava  no dia seguinte para acabar o trabalho, mas que ela lhe tinha que pagar  mais 20 euros.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quer dizer: os 50, que baixou para os 40, passavam agora a ser 60!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não, muito obrigado – arranco eu o resto das ervas, exclamou ela.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E arrancou, toda curvada e sem sinal de dores nas costas!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Depois, juntou as ervas todas num monte e pegou-lhes fogo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Veio a autoridade e multou-a: 120 euros por estar a fazer uma queimada não autorizada!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Afinal, dos 40 euros que pensava gastar, acabou por desembolsar 160!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Agora, assim que aparece uma erva, arranca-a logo pela raiz!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O exercício só faz é bem…&lt;/p&gt;
&lt;/div&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 15 Nov 2010 19:21:39 GMT</pubDate>
  <title># 37</title>
  <author>artur</author>
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  <description>&lt;p&gt;Andava muito preocupada com a falta de memória.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Queria uns comprimidos para a cabeça.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ainda agora, está a ver, doutor? Vinha para lhe mostrar as analises e deixei-as na mesa do café onde estive a tomar o pequeno-almoço!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Isso acontece a qualquer pessoa, digo eu.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Pois, mas comigo as coisas têm vindo a piorar...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;No outro dia, convidei uma amiga minha para almoçar e perguntei-lhe se ela gostava de bacalhau com grão.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Disse-me que sim e ficou combinado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E almoçámos bem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E só quando estava a lavar os pratos é que percebi que eles não tinham aquela goma própria do bacalhau: tínhamos almoçado só grão com batatas e feijão verde. Não cheguei a tirar o bacalhau do congelador!&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E a sua amiga não disse nada?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não - ela ainda está pior do que eu!...&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Thu, 11 Nov 2010 19:03:07 GMT</pubDate>
  <title># 36</title>
  <author>artur</author>
  <link>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/9356.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Católico fervoroso, rezava o terço todas as tardes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando vinha à consulta, queixava-se sempre de disfunção eréctil.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Contradições... ou talvez não...&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 09 Nov 2010 18:18:02 GMT</pubDate>
  <title># 35</title>
  <author>artur</author>
  <link>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/9143.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Era grande e bem constituído.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cenho sempre cerrado e boné com a pala a ensombrar ainda mais os óculos escuros, espelhados.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Assustava.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Numa rixa, há anos, tinha levado uma facada na boca.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tiveram que fazer laringuectomia e cortar-lhe um pedaço da língua.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desde então, custava-lhe muito dizer os éles. E não só.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Então, preferia escrever.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando vinha à consulta, trazia uma lista das queixas, escrita num caderno. Colocava-o sobre a secretária, virado para mim e dizia vamos lá a ver isto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E eu ia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Que remédio...&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 19 Oct 2010 16:47:32 GMT</pubDate>
  <title># 34</title>
  <author>artur</author>
  <link>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/8890.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Nem mesmo quando ela convalescia de uma cirurgia abdominal extensa, ele a largou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Queria sexo todos os dias e a toda a hora.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Literalmente.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tinha ele, nessa altura, à volta de 70 anos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aosa 80, persistia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Todas as noites.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ela não tinha como fugir.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com artroses nas articulações principais e nas outras, com pace-maker por arritmia grave, com anemia, com hipertensão - nada disso a livrava dele.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E ele já ia nos 87.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Com vergonha, contou ao filho, que contou ao médico.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Optou-se por um calmantezinho, dissimulado na sopa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Agora, com 89, e graças ao calmantezinho, já só a procura uma ou duas vezes por semana.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E, apesar das artroses, ela consegue fugir.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quase sempre...&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Thu, 30 Sep 2010 18:37:28 GMT</pubDate>
  <title># 33</title>
  <author>artur</author>
  <link>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/8473.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Tinha uma doença tão esquisita que ainda não havia nome para ela.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Conseguiu, por isso, ser reformada por invalidez antes dos 40 anos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Sentia dores nas articulações, nos músculos, nos ossos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dores que a impediam de fazer qualquer tipo de esforço, a não ser apanhar a camioneta e ir para a praia, torrar ao sol.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Dores que a faziam arrastar-se até ao Centro Comercial, onde passava tardes a olhar para as montras.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Só muito mais tarde lhe deram um nome à sua doença e o nome era fibromialgia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Piorou muito.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O nome da doença impunha respeito e mais invalidez.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Passou a ir às danças de salão apenas três vezes por semana, mas não desistiu das sevilhanas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Parece que lhe fazia bem aos calcanhares.&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Wed, 15 Sep 2010 18:23:26 GMT</pubDate>
  <title># 32</title>
  <author>artur</author>
  <link>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/8305.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Tinha nome de matemático grego e era a confusão em pessoa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando jovem, parece que foi segurança de alguns políticos, mas não é certo que tenha sido assim.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vivido e viajado, parece que passou alguns anos nos países escandinavos, mas também pode não ter sido exactamente assim.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vivido e viajado, teve muitas namoradas e a certa altura apanhou uma doença venérea, tendo estado internado algures na Suécia, mas também pode não ter sido assim.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Nesse hospital, muito avançado para a época, serviu de cobaia para um novo medicamento no tratamento das doenças venéreas. Foi graças a esse medicamento que ficou assim, confuso. Ou talvez não.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cada vez mais desconfiado, comprou um apartamento sem dizer nada à sua mulher, não fosse ela querer envenená-lo e ele ter que se refugiar num local seguro. Ou não.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Cada vez mais confuso, trazia, no outro dia, cinco embalagens de cinco genéricos do ramipril, de cinco laboratórios diferentes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Garantiu-me que não estava a tomar todos ao mesmo tempo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ou estaria?&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Fri, 03 Sep 2010 19:42:13 GMT</pubDate>
  <title># 31</title>
  <author>artur</author>
  <link>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/7995.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Era técnico de manutenção.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tinha a seu cargo válvulas de segurança, bombas de sucção, manómetros e tubagens várias.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desde novo que se preocupava com o seu aparelho urinário.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Apesar das ecografias renais normais e das análises de urina inocentes, afirmava que a sua urina tinha um depósito permanente, com pequenas partículas que ele esmagava entre os dedos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Não eram as uroculturas negativas e os exsudados uretrais estéreis que o impediam de sentir ardor a urinar, urgência, polaquiúria e toda a panóplia de sintomas, que aumentaram consideravelmente com o advento do Google.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O fluxo urinário também o preocupava: tinha dificuldade em iniciar a micção, o fluxo era fraco, interrompia-se, gotejava.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E também havia a glande e o sulco balano-prepucial que tinham sempre qualquer coisa: manchas, minúsculas borbulhas, glândulas sebáceas entupidas, saliências e reentrâncias, comichões e descamações.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Tudo isto implicava cremes hidratantes com um ph específico e exames complementares frequentes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E todos normais, claro.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas, se calhar, ele é que tinha razão.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Afinal de contas, era ele o técnico em tubagens.&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Thu, 26 Aug 2010 18:32:57 GMT</pubDate>
  <title># 30</title>
  <author>artur</author>
  <link>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/7805.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Qunado era encarregado na fábrica, todos o detestavam. Mal encarado, mal disposto, intransigente, intolerante.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Depois do enfarto, foi reformado por invalidez e fechou-se em casa, a sarrazinar a mulher.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ao fim de alguns anos, a mulher começou a fazer-se de surda, de distraída, até de demente. Perguntava-lhe o que queres para o almoço? Ele respondia carapaus. Ela fazia-lhe bifanas.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ele bufava e queria tratar a mulher, para que a mulher o tratasse melhor.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Levou-a a um neurologista, que a medicou para o Alzheimer e ela foi ficando cada vez mais tola.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E ele cada vez mais só.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mal encarado e mal disposto.&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Tue, 17 Aug 2010 15:39:22 GMT</pubDate>
  <title># 29</title>
  <author>artur</author>
  <link>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/7611.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Desde que teve aquele herpes zooster na testa que começou a atribuir significados estranhos a coisas simples.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aquelas pedras, no chão, a caminho de casa - quem as lá teria posto?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E aqueles ruídos da madeira a estalar durante a noite - qual seria o objectivo?&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Já no que respeita àquelas sombras, mesmo à porta de casa, não tinha dúvida que queriam dizer alguma coisa.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Desde que o herpes lhe enchera a testa de pequenas vesículas que o seu pensamento nunca mais ficou descansado. Sentia uma coisa a passear por ali, pelo couro cabeludo, uma coisa que era difícil de explicar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Vivia sozinho, com uma filha deficiente e, pela primeira vez, começou a pensar que as coisas são como são porque há forças superiores, que nos controlam e dominam e condicionam.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Suspeito que já oiça vozes, mas ainda não acredita nelas.&lt;/p&gt;</description>
  <comments>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/7611.html</comments>
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<item>
  <guid isPermaLink='true'>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/7288.html</guid>
  <pubDate>Mon, 16 Aug 2010 14:22:40 GMT</pubDate>
  <title># 28</title>
  <author>artur</author>
  <link>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/7288.html</link>
  <description>&lt;p&gt;M.I. usava sempre uma bata azul escura com florinhas brancas e falava, falava, falava sem parar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O cabelo em desalinho e dois únicos dentes, um em cada maxilar e uma capacidade inverosímil para falar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O marido morrera há muitos anos. Ficaram uma filha e um filho, ambos na casa dos 40, ambos solteirões e um velho pai, de quem herdou a necessidade de lavar as mãos dezenas de vezes por dia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O pai raramente falava. Passava os dias calado, sentado no sofá, com um xaile pelas pernas e os olhos baços vagueando, como se seguissem uma mosca imaginária.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas ela falava pelos dois.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando começava a contar uma história era impossível saber quando iria terminar. Tinha a faculdade de entrelaçar as histórias umas nas outras e de transformar os pequenos episódios do dia-a-dia em histórias com vários capítulos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma das suas favoritas era a históra da placa dentária, do dentista que a fez e da mãe dele.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E também havia a do chapéu do pai, e a da brotoeja provocada pelas silvas, e da namorada do filho que era galdéria, e a do patrão da filha que não a largava, e a do bacio onde o pai cuspia, mesmo durante as refeições, e a do emprego do filho que era uma miséria, e ela falava, falava, falava sem parar.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O pai de M.I. acabou por morrer, já perto do centenário e os filhos não vão aguentar muito mais tempo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;M.I. acaba a falar sozinha.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Wed, 11 Aug 2010 12:56:32 GMT</pubDate>
  <title># 27</title>
  <author>artur</author>
  <link>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/7164.html</link>
  <description>&lt;p&gt;No que diz respeito à vida sexual, F. experimentou um deserto dos 20 aos 40 anos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O primeiro marido era pouco imaginativo, nada apelativo e completamente desinspirado no que tocava ao sexo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E não tocava no sexo.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E ela queixava-se de falta de líbido, de incapacidade orgasmática, de desilusão sexual.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Isto por outras palavras, está bem de ver.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Aos 40 anos teve coragem.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mudou de marido.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Agora queixa-se do contrário.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Uma dor nas ancas é porque teve relações de pé, uma dor nas coxas é porque esteve de gatas muito tempo, a ter relações por trás, queixa-se depois do sexo oral, do vaginal e do anal, queixa-se sempre muito, sempre se queixou...&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas está muito mais feliz.&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Mon, 09 Aug 2010 14:09:19 GMT</pubDate>
  <title># 26</title>
  <author>artur</author>
  <link>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/6778.html</link>
  <description>&lt;p&gt;M.L. tinha três filhos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O mais velho era deficiente. Aos 14 anos, um vizinho que era mecânico levou-o para ajudar na oficina. Serviu de moço de recados, alvo de troça, escravo suave, mas manteve-se na oficina e, com quase 40 anos, é lá que o podemos ver, fazendo coisas que outros aprendizes não são capazes.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O filho do meio deu para o torto logo aos 16 anos: viu-se metido numa rixa e levou uma facada no tórax. Aos 18 anos já fazia parte de um gangue que assaltava lojas de desporto. Roubavam os ténis de marca, que depois vendiam a metade do preço. Foi apanhado e esteve preso oito anos por associação criminosa e furto.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A filha mais nova engravidou aos 14 e aos 16 anos. Dois rapazes. Depois, tornou-se toxicodependente, prostituiu-se, traficou e foi apanhada. Presa, os dois filhos ficaram cada um com sua avó.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O filho que ficou com a avó paterna, parece que tem tido uma adolescência banal.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O filho que ficou com M.L. já foi apanhado a roubar, aos 13 anos e foi institucionalizado.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E M.L. é como tantas outras!...&lt;/p&gt;</description>
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  <pubDate>Fri, 06 Aug 2010 16:48:44 GMT</pubDate>
  <title># 25</title>
  <author>artur</author>
  <link>http://gente-que-eu-conheci.blogs.sapo.pt/6467.html</link>
  <description>&lt;p&gt;Quando estava doente, J. contactava com o seu guia espiritual e pedia-lhe ajuda.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O problema era que o seu guia tinha morrido já há muitos anos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Mas J. não se atrapalhava. Com o tempo, tinha desenvolvido uma espécie de capacidade mediúnica e conseguia falar com ele.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E então ele dizia-lhe, por exemplo, vai ter com o teu médico e diz-lhe que deve ser da bexiga.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Ele ia ao médico e explicava que andava com dificuldade em iniciar a micção, ardor a urinar e outras queixas urinárias.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;E não é que o médico, entre outras coisas, lhe pedia mesmo uma ecografia da bexiga?! Claro que isso dava credibilidade ao guia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Passou a consultá-lo mais amiúde, não só para ele, mas também para alguns familiares, vizinhos e amigos.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando descobriu um alto na virilha, que desaparecia quando se deitava, comunicou com o guia que lhe disse que era uma hérnia.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O médico confirmou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;Quando viu as pequenas vesículas todas alinhadas, acompanhadas de dor intensa, na região intercostal, falou com o guia que lhe disse tratar-se de zona.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;O médico confirmou.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;A pouco e pouco, passou a consultar o guia, em vez do médico, até que deixou de ir ao médico.&lt;/p&gt;
&lt;p&gt; &lt;/p&gt;
&lt;p&gt;É por isso que não sei como acabou esta história.&lt;/p&gt;</description>
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