# 28

M.I. usava sempre uma bata azul escura com florinhas brancas e falava, falava, falava sem parar.

 

O cabelo em desalinho e dois únicos dentes, um em cada maxilar e uma capacidade inverosímil para falar.

 

O marido morrera há muitos anos. Ficaram uma filha e um filho, ambos na casa dos 40, ambos solteirões e um velho pai, de quem herdou a necessidade de lavar as mãos dezenas de vezes por dia.

 

O pai raramente falava. Passava os dias calado, sentado no sofá, com um xaile pelas pernas e os olhos baços vagueando, como se seguissem uma mosca imaginária.

 

Mas ela falava pelos dois.

 

Quando começava a contar uma história era impossível saber quando iria terminar. Tinha a faculdade de entrelaçar as histórias umas nas outras e de transformar os pequenos episódios do dia-a-dia em histórias com vários capítulos.

 

Uma das suas favoritas era a históra da placa dentária, do dentista que a fez e da mãe dele.

 

E também havia a do chapéu do pai, e a da brotoeja provocada pelas silvas, e da namorada do filho que era galdéria, e a do patrão da filha que não a largava, e a do bacio onde o pai cuspia, mesmo durante as refeições, e a do emprego do filho que era uma miséria, e ela falava, falava, falava sem parar.

 

O pai de M.I. acabou por morrer, já perto do centenário e os filhos não vão aguentar muito mais tempo.

 

M.I. acaba a falar sozinha.

 

 

 

 

publicado por artur às 15:22 | link do post | comentar