# 24

Trabalhou 20 anos na construção naval e o ruído destruiu-lhe a audição.

 

Era um tipo fechado, de poucas falas e estava casado com uma gorducha que falava, falava sem parar.

 

A surdez progressiva isolava-o cada vez mais e a mulher espicaçava-o porque ele não respondia, não participava nas conversas da família, não ligava à televisão, não saía, não tinha amigos.

 

O médico do trabalho propô-lo para a reforma por doença profissional.

 

Veio para casa, reformado e fechou-se ainda mais.

 

Os "sonotones" que usava ajudavam um pouco, mas precisava de ambientes calmos. Se existissem muito ruídos em redor, não conseguia distinguir os sons, começava com tonturas, entrava em pânico, tinha que sair dali para fora.

 

E, em casa, a mulher massacrava-o, azucrinava-lhe o juízo.

 

Já não a podia aturar mais. A voz dela era um punhal a perfurar-lhe os tímpanos fibrosados. Por isso, assim que entrava em casa, desligava as próteses auditivas

 

Foi por isso que não a ouviu gritar.

 

Muito menos ouviu o som da nuca dela a embater no balcão da cozinha.

publicado por artur às 17:24 | link do post | comentar