# 23

Era motorista de transportes públicos e adormecia ao volante.

 

Bastava parar o autocarro numa paragem onde tivessem mais passageiros para descer ou subir, que ele começava logo a cabecear e a fechar os olhos. Eram os passageiros que o acordavam.

 

A meio da noite, acordava sobressaltado e ficava com dificuldade em respirar.

 

Crises de pânico, disse-lhe eu.

 

Começou a adormecer em andamento. Certo dia, raspou o autocarro no separador central de uma via rápida, até que ele se imobilizou, entre a gritaria dos passageiros.

 

Foi ao médico da empresa. Fez exames. Apneia do sono, foi o veredicto.

 

Fez cirurgia do palato mole e começou a dormir com ventilação respiratória. Reformaram-no.

 

Deixou de acordar a meio da noite, com falta de ar, acabou por desistir do aparelho que o ajudava a respirar e candidatou-se a segurança, que a reforma era pequena.

 

Teve que frequentar um curso de formação, mas a sala de aulas era muito pequena e ele sentia-se sufocar.

 

Clautrofobia, repeti-lhe.

 

Voltou a ser operado. Adenoidectomia e correcção do septo nasal.

 

Nunca mais sentiu falta de ar mas começou com as diarreias.

 

No meio da caminhada diária que lhe aconselharam, a cólica surgia inopinadamente e tinha que ser ali. Corria para o baldio mais próximo e aliviava-se.

 

Crises de pânico, insisti.

 

Aceitou.

 

Vai melhorando.

publicado por artur às 17:27 | link do post | comentar