# 22

Era vê-la, sempre a correr de um lado para o outro, sempre muito apressada.

 

Magra, muito seca, sempre com um saquinho de plástico na mão, onde guarda o porta-moedas, um lenço com flores roxas e as chaves de casa.

 

Fora casada com um homem, que a ignorava, mas que gostava muito de olhar para as outras mulheres, sobretudo para uma vizinha, que ele espreitava pela janela da casa de banho.

 

G. sentia-se revoltada e mal amada mas não ficou melhor quando ele morreu.

 

Ficou sozinha com a sogra, com uma demência progressiva.

 

A sogra já não se lembrava de quem era e gostava de ecolálias.

 

Dá cá, dá, dá cá, repetia. Que foi, que foi, que foi, perguntava à exaustão.

 

E G. a correr, de casa para a retrosaria que tinha há décadas, da retrosaria para a farmácia, para comprar fraldas para a sogra, da farmácia para casa, onde a velhota repetia onde está, onde está, onde está.

 

Mas G. não ficou melhor depois da morte da sogra.

 

Continuou a correr e começou a criar rituais.

 

Sem ninguém para cuidar, começou a ter que verificar  seis vezes se o gás estava fechado, cinco vezes se a torneira da cozinha não estava a pingar, sete vezes se a porta da rua estava trancada.

 

E continua a correr, de casa para a loja, onde deita bainhas abaixo, sobe bainhas de saias e passaja peúgas do século passado.

 

G. só vai parar um dia.

publicado por artur às 18:51 | link do post | comentar