# 19

Não conseguiu acabar a instrução primária, mal sabia ler e escrever e exprimia-se com muita dificuldade, com um vocabulário limitado e com dificuldade na articulação de muitas palavras.

 

Talvez por isso, F. era um solitário e introvertido empregado da Câmara, trabalhando na recolha do lixo.

 

Na varanda da sua casa, acumulavam-se os mais diversos objectos que ele encontrava no lixo e que recolhia, fazendo assim uma estranha e variada colecção.

 

F. raramente olhava para uma pessoa de frente, caminhava sempre com a cabeça baixa e tinha um ar até um pouco assustador, mas não fazia mal a ninguém.

 

Só se descontraía quando corria. E corria bem. Três vezes por semana, treinava durante mais de uma hora e aos domingos participava nas provas organizadas pelos clubes populares e pelas autarquias.

 

A correr, F. era outra pessoa.

 

Já muito depois dos 40, F. conheceu uma cinquentona quase analfabeta, como ele.

 

D. tinha mais dez anos que F. e um passado de doença psiquiátrica, com diversos internamentos.

 

Juntaram os trapinhos, para espanto de muita gente.

 

D. tinha mais dificuldade do que F. em articular muitas palavras, e os neurolépticos ainda lhe entaramelavam mais a língua.

 

F. não se importava.

 

Quem precisa de conversa?...

 

publicado por artur às 10:05 | link do post | comentar