# 14

G. era sempre o centro das atenções, sobretudo no que dizia respeito às doenças.

 

Ninguém, nunca, estava mais doente do que ela.

 

Ela tinha o colesterol mais alto, as artroses mais marcadas, as tendinites mais dolorosas, a gastrite mais resistente.

 

E era perita em comparações exóticas.

 

Uma dor na anca era como se lhe estivessem a arrancar a cabeça do fémur, uma cefaleia era como se lhe estivessem a abrir a cabeça e a martelarem-lhe lá dentro, uma farfalheira era como se fossem gemidos das almas do outro mundo numa sessão espírita.

 

E, no entanto, ultrapassados já os 70 anos, mantinha-se com bom aspecto, autónoma, lúcida, com mobilidade apreciável.

 

O marido, pelo contrário, tinha uma artrose do joelho que quase o impedia de andar, mas a dela é que doía.

 

O marido acabou por ter que ser operado e, na sequência, fez retenção urinária e insuficiência renal aguda, mas a ela é que lhe ardia a urinar.

 

O homem safou-se mas ela garante que não se vai safar.

 

Há-de acabar por morrer saudável.

publicado por artur às 11:57 | link do post | comentar