Era vê-la, sempre a correr de um lado para o outro, sempre muito apressada.
Magra, muito seca, sempre com um saquinho de plástico na mão, onde guarda o porta-moedas, um lenço com flores roxas e as chaves de casa.
Fora casada com um homem, que a ignorava, mas que gostava muito de olhar para as outras mulheres, sobretudo para uma vizinha, que ele espreitava pela janela da casa de banho.
G. sentia-se revoltada e mal amada mas não ficou melhor quando ele morreu.
Ficou sozinha com a sogra, com uma demência progressiva.
A sogra já não se lembrava de quem era e gostava de ecolálias.
Dá cá, dá, dá cá, repetia. Que foi, que foi, que foi, perguntava à exaustão.
E G. a correr, de casa para a retrosaria que tinha há décadas, da retrosaria para a farmácia, para comprar fraldas para a sogra, da farmácia para casa, onde a velhota repetia onde está, onde está, onde está.
Mas G. não ficou melhor depois da morte da sogra.
Continuou a correr e começou a criar rituais.
Sem ninguém para cuidar, começou a ter que verificar seis vezes se o gás estava fechado, cinco vezes se a torneira da cozinha não estava a pingar, sete vezes se a porta da rua estava trancada.
E continua a correr, de casa para a loja, onde deita bainhas abaixo, sobe bainhas de saias e passaja peúgas do século passado.
G. só vai parar um dia.