# 45

Apesar de já ter ultrapassado os 70, G.G. falava como se tivesse idade para se encher de mimo.
Tentou passar parte desse mimo para o filho único que, no entanto, sempre o rejeitou. Assim que pôde, deixou a casa dos pais, para grande desgosto de G.G.

Foi costureira a vida toda, no tempo em que as camisas ainda eram feitas por medida e gabava-se de ter sido mestra.

Talvez por isso, achava que o mundo era feito à sua medida e ficou revoltada quando o marido morreu.

Tinha então cerca de 60 anos e decidiu reformar-se.

Fechou-se em casa.

De vez em quando, passava uns dias em casa do filho, mas sempre com grandes conflitos com a nora.

À noite, tinha dificuldade em dormir e começou a sentir a invasão dos espíritos. Só podiam ser espíritos. Entravam-lhe pelos pés, punham-na a tremer, arrepiavam-na toda e, eventualmente, acabavam por sair pelos cabelos.

Gostava que eu a fosse consultar lá a casa, não por que não pudesse deslocar-se, mas porque não gostava de sair de casa. Tinha medo dos espíritos mas sentia-lhes a falta...

Naquele dia, no entanto, não estava em casa quando lá fui.

Explicou-me depois que fora para casa do filho durante uns dias, porque a nora "foi liquidar as trompas".

Assassinos!...
publicado por artur às 21:36 | link do post | comentar