Sábado, 08.06.13

# 53

Foi desde que a minha mãe soprou naquele fumo que ficou assim.

 

Desde que soprou num fumo? indaguei.

 

Sim... - disse a filha - eu sei que o doutor não acredita nestas coisas, mas a minha mãe gosta de queimar uns fumos lá em casa.

 

Para tirar cheiros? perguntei.

 

Qual! 

 

Para afastar os maus espíritos, as almas penadas.

 

Uma pequena que eu conheço - prosseguiu a filha - deu-nos umas ervas especiais para afugentar os espíritos e a minha mãe foi queimá-las lá em casa e soprou no fumo. Foi depois disso que ficou com o coração assim, aos saltos...

 

Auscultei a mãe.

 

Tinha, de certeza, uma fibrilhação auricular.

 

Malditas almas penadas!

publicado por artur às 18:50 | link do post | comentar
Segunda-feira, 29.04.13

# 52

Dizia que era médium mas que não sabia controlar esse poder.

 

Sofria horrores com os sofrimentos alheios.

 

De repente, uma angústia avassaladora, uma sensação de morte eminente.

 

Dava urros, agitava os braços, ninguém a segurava.

 

Depois, tudo passava e ela ficava exausta.

 

Mais tarde, vinha a saber que alguém conhecido estava doente e esse mal, de algum modo misterioso, se transferia para ela.

 

Quando a consultava no domicílio, tinha períodos em que mudava de voz.

 

Num sussurro, dava-me instruções, dizia-me como devia proceder, os exames que devia pedir.

 

Depois voltava ao seu registo habitual e mostrava-se espantada, como se tivesse sido habitada por outra pessoa durante aquele todo aquele tempo.

 

Naquelas consultas, sentia-me completamente ignorante.

 

Ninguém nos ensina isto na Faculdade!

publicado por artur às 20:58 | link do post | comentar
Terça-feira, 23.10.12

# 51

Visita domiciliária em casa da Dona Sofia.

 

A mesinha da sala é um caos de embalagens de comprimidos.

 

Dona Sofia, isto assim é uma confusão e a senhora ainda se engana e toma comprimidos a mais ou a menos; tem que comprar uma daquelas caixas para meter comprimidos, daquelas que têm compartimentos para os vários dias da semana - sugiro.

 

O rosto da Dona Sofia ilumina-se e exclama: tenho duas caixas dessas!

 

Levanta-se e vai lá dentro - manobra que demora uma eternidade.

 

Regressa com duas caixas minúsculas, daquelas em que cabem um ou dois comprimidos; ambas têm a imagem da Senhora de Fátima na tampa.

 

Estas caixas até estão benzidas! - exclama.

 

Afinal, é por isso que existem remédios milagrosos...

publicado por artur às 21:34 | link do post | comentar

# 50

Doutor, o que me diz daqueles comprimidos para os ossos que anunciam na televisão? - pergunta-me a velhota, cheia de artroses.

 

Quais comprimidos, pergunto.

 

Aqueles que o Jorge Gabriel anuncia, até aparece o número de telefone por baixo, para a gente encomendar.

 

Eu sei lá que comprimidos são esses, Dona Gertrudes! A senhora acha que eu tenho tempo para ver esses programas da manhã da televisão?

 

Mas eles dizem que os comprimidos são tão boas, que curam tiram as dores todas...

 

E como se chamam os comprimidos?

 

Isso não sei, mas sei o número de telefone...

publicado por artur às 21:28 | link do post | comentar
Quinta-feira, 02.02.12

# 49

Recebi este bilhete, que me deixou perplexo:

"Pedir ao doutor que me passe um medicamento para evitar a ressonância, que tenho alturas que me afeta muito. Se não for possível, uma almofada, mas que resulte. Ou então, em último caso, uns tampões para a mulher pôr nos ouvidos durante a noite porque não consegue dormir ao meu lado. Os tampões têm que ser adequados para tal fim."

O autor do bilhete não estava presente. Soube, pela filha, que estava a passar uns tempos no Alentejo.


Confesso que fiquei sem saber o que fazer.


Como se sabe, medicamentos para evitar a ressonância, não existem.


Quanto a almofadas que resultem, também estamos conversados.


No que respeita a almofadas, o Simposium Terapêutico é um deserto. Dezenas de antibióticos, muitos cremes e pomadas, drogas para quase todas as maleitas - mas nada de almofadas.


Restavam os tampões.


Adequados para tal fim, claro.


O doente sugeria que eles fossem introduzidos nos ouvidos da mulher, de modo a ela não ouvir a ressonância.


Mas havia outra hipótese: introduzir os tampões nas narinas do ressonador e tapar-lhe a boquinha com a almofada.


Resultaria?...

publicado por artur às 19:26 | link do post | comentar
Quinta-feira, 20.10.11

# 48

O Sr. Armindo andava com uma tosse que o tirava do sério.

 

Dizia ele que a malvada era tão intensa que quase lhe apetecia dar um tiro na cabeça.

 

Não conseguia dormir, urinava-se todo, evitava andar de transportes públicos para não assustar os companheiros de viagem, fugia de salas de espera e até ao pé da mulher e da filha se sentia incomodado por estar sempre a tossir.

 

Pensei que podia ser efeito secundário do inibidor do enzima de conversão, que muitas vezes provoca tosse e mudei-lhe para outro anti-hipertensor.

 

Sem resultado.

 

Claro que não valia a pena experimentar anti-tússicos e anti-histamínicos. Isso já o Sr. Armindo tinha tentado, também sem resultado.

Pensei depois em refluxo gastro-esofágico que, em algumas situações provoca tosse e prescrevi-lhe um inibidor da bomba de protões.

 

Sem resultado.

 

Desisti.

 

Ontem, o Sr. Rodrigues voltou à consulta.

 

Sem tosse.

 

E informou-me que tinha resolvido o problema com uma receita caseira. Um chá.

 

Exigi que me fornecesse a receita milagrosa.

 

Palavras dele: «250 gramas de açúcar mascavado, uma cerveja preta, das pequenas, uma laranja e três folhas de ôcalitro».

 

Bastaram duas colheres desse chá ao deitar, durante cinco dias, e a tosse desapareceu.

 

O segredo, claro, está no ôcalitro…

publicado por artur às 21:03 | link do post | comentar
Terça-feira, 23.08.11

# 47

Tinha sido um homem da vida, dizia.

 

A certa altura, teve uma revelação: deixou tudo e passou a viver numa carrinha.

 

E passou a frequentar uma igreja pentecostal, fértil em milagres.

 

Garantia que Jesus Cristo já o tinha curado de um cancro nos rins e de um cancro na "próspera".

 

Tudo graças a muita oração.

 

E por que razão ia ao médico, se Jesus Cristo o curava de tudo e mais alguma coisa?

 

Pois ele ia ao médico para ter provas das curas milagrosas.

 

A técnica era esta: ia a uma consulta de urgência, queixando-se de uma dor excruciante, digamos, num joelho. O médico, perante tanto sofrimento, acabava por lhe pedir um raio xis ao joelho.

 

Alguns dias depois, já com o raio xis na mão, voltava à urgência, onde era atendido por outro médico.

 

Este, ao ver o raio xis, dizia-lhe que estava tudo bem e ele elevava as mãos aos céus e bradava Milagre!

 

Com seguidores destes, não há igreja que resista...

publicado por artur às 21:01 | link do post | comentar
Domingo, 31.07.11

# 46

Na alimentação, sou radical - disse, peremptório. Nunca me afasto da minhas regras!

 

De manhã, como sempre uma maçã, uma banana e mamão, explicou. Por volta do meio dia, como qualquer coisa com pão. Às 2 da tarde, almoço. À noite, só como sopa. E bebo quatro copos de água por dia. Nem mais, nem menos.

 

E, pelos vistos, o sr. Duarte dava-se bem com essa dieta. Com 86 anos, não tomava nenhum comprimido e raramente estava doente.

 

Mas hoje, sr. Duarte, por que razão vem à consulta?

 

Estou com uma diarreia tramada, disse.

 

Ontem comi uma pizza, concluiu com ar triste...

publicado por artur às 18:21 | link do post | comentar
Terça-feira, 31.05.11

# 45

Apesar de já ter ultrapassado os 70, G.G. falava como se tivesse idade para se encher de mimo.
Tentou passar parte desse mimo para o filho único que, no entanto, sempre o rejeitou. Assim que pôde, deixou a casa dos pais, para grande desgosto de G.G.

Foi costureira a vida toda, no tempo em que as camisas ainda eram feitas por medida e gabava-se de ter sido mestra.

Talvez por isso, achava que o mundo era feito à sua medida e ficou revoltada quando o marido morreu.

Tinha então cerca de 60 anos e decidiu reformar-se.

Fechou-se em casa.

De vez em quando, passava uns dias em casa do filho, mas sempre com grandes conflitos com a nora.

À noite, tinha dificuldade em dormir e começou a sentir a invasão dos espíritos. Só podiam ser espíritos. Entravam-lhe pelos pés, punham-na a tremer, arrepiavam-na toda e, eventualmente, acabavam por sair pelos cabelos.

Gostava que eu a fosse consultar lá a casa, não por que não pudesse deslocar-se, mas porque não gostava de sair de casa. Tinha medo dos espíritos mas sentia-lhes a falta...

Naquele dia, no entanto, não estava em casa quando lá fui.

Explicou-me depois que fora para casa do filho durante uns dias, porque a nora "foi liquidar as trompas".

Assassinos!...
publicado por artur às 21:36 | link do post | comentar
Quarta-feira, 18.05.11

# 44

Que estava muito triste, que não lhe apetecia viver, que, lhe desse, agora mesmo, um AVC, não se importaria nada.

 

Sentia-se assim desde que abandonara o lar, deixando o marido e a filha. Aquela vida já não lhe interessava e, além disso, tinha conhecido o homem da sua vida.

 

Foi viver com ele.

 

Com ele e com a mulher e as suas duas filhas.

 

Espantado, perguntei-lhe como era possível estar a viver com o amante, a sua mulher e as filhas de ambos.

 

Respondeu-me, com naturalidade, que ela não sabia de nada.

 

Trabalha de noite... - esclareceu.

 

Depois de ela sair para trabalhar, eu vou para o pé dele; depois, quando ela está quase a chegar, volto para o sofá da sala.

 

Novas organizações familiares, não há dúvida.

publicado por artur às 21:58 | link do post | comentar

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  • Já tinha saudades, Sr. Doutor. Obrigado.
  • Mais refinado, agora. E até estuda Direito!
  • Este eu também conheci!Grande cromo.

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