Quinta-feira, 20.10.11

# 48

O Sr. Armindo andava com uma tosse que o tirava do sério.

 

Dizia ele que a malvada era tão intensa que quase lhe apetecia dar um tiro na cabeça.

 

Não conseguia dormir, urinava-se todo, evitava andar de transportes públicos para não assustar os companheiros de viagem, fugia de salas de espera e até ao pé da mulher e da filha se sentia incomodado por estar sempre a tossir.

 

Pensei que podia ser efeito secundário do inibidor do enzima de conversão, que muitas vezes provoca tosse e mudei-lhe para outro anti-hipertensor.

 

Sem resultado.

 

Claro que não valia a pena experimentar anti-tússicos e anti-histamínicos. Isso já o Sr. Armindo tinha tentado, também sem resultado.

Pensei depois em refluxo gastro-esofágico que, em algumas situações provoca tosse e prescrevi-lhe um inibidor da bomba de protões.

 

Sem resultado.

 

Desisti.

 

Ontem, o Sr. Rodrigues voltou à consulta.

 

Sem tosse.

 

E informou-me que tinha resolvido o problema com uma receita caseira. Um chá.

 

Exigi que me fornecesse a receita milagrosa.

 

Palavras dele: «250 gramas de açúcar mascavado, uma cerveja preta, das pequenas, uma laranja e três folhas de ôcalitro».

 

Bastaram duas colheres desse chá ao deitar, durante cinco dias, e a tosse desapareceu.

 

O segredo, claro, está no ôcalitro…

artur às 21:03 | link do post | comentar
Terça-feira, 23.08.11

# 47

Tinha sido um homem da vida, dizia.

 

A certa altura, teve uma revelação: deixou tudo e passou a viver numa carrinha.

 

E passou a frequentar uma igreja pentecostal, fértil em milagres.

 

Garantia que Jesus Cristo já o tinha curado de um cancro nos rins e de um cancro na "próspera".

 

Tudo graças a muita oração.

 

E por que razão ia ao médico, se Jesus Cristo o curava de tudo e mais alguma coisa?

 

Pois ele ia ao médico para ter provas das curas milagrosas.

 

A técnica era esta: ia a uma consulta de urgência, queixando-se de uma dor excruciante, digamos, num joelho. O médico, perante tanto sofrimento, acabava por lhe pedir um raio xis ao joelho.

 

Alguns dias depois, já com o raio xis na mão, voltava à urgência, onde era atendido por outro médico.

 

Este, ao ver o raio xis, dizia-lhe que estava tudo bem e ele elevava as mãos aos céus e bradava Milagre!

 

Com seguidores destes, não há igreja que resista...

artur às 21:01 | link do post | comentar
Domingo, 31.07.11

# 46

Na alimentação, sou radical - disse, peremptório. Nunca me afasto da minhas regras!

 

De manhã, como sempre uma maçã, uma banana e mamão, explicou. Por volta do meio dia, como qualquer coisa com pão. Às 2 da tarde, almoço. À noite, só como sopa. E bebo quatro copos de água por dia. Nem mais, nem menos.

 

E, pelos vistos, o sr. Duarte dava-se bem com essa dieta. Com 86 anos, não tomava nenhum comprimido e raramente estava doente.

 

Mas hoje, sr. Duarte, por que razão vem à consulta?

 

Estou com uma diarreia tramada, disse.

 

Ontem comi uma pizza, concluiu com ar triste...

artur às 18:21 | link do post | comentar
Terça-feira, 31.05.11

# 45

Apesar de já ter ultrapassado os 70, G.G. falava como se tivesse idade para se encher de mimo.
Tentou passar parte desse mimo para o filho único que, no entanto, sempre o rejeitou. Assim que pôde, deixou a casa dos pais, para grande desgosto de G.G.

Foi costureira a vida toda, no tempo em que as camisas ainda eram feitas por medida e gabava-se de ter sido mestra.

Talvez por isso, achava que o mundo era feito à sua medida e ficou revoltada quando o marido morreu.

Tinha então cerca de 60 anos e decidiu reformar-se.

Fechou-se em casa.

De vez em quando, passava uns dias em casa do filho, mas sempre com grandes conflitos com a nora.

À noite, tinha dificuldade em dormir e começou a sentir a invasão dos espíritos. Só podiam ser espíritos. Entravam-lhe pelos pés, punham-na a tremer, arrepiavam-na toda e, eventualmente, acabavam por sair pelos cabelos.

Gostava que eu a fosse consultar lá a casa, não por que não pudesse deslocar-se, mas porque não gostava de sair de casa. Tinha medo dos espíritos mas sentia-lhes a falta...

Naquele dia, no entanto, não estava em casa quando lá fui.

Explicou-me depois que fora para casa do filho durante uns dias, porque a nora "foi liquidar as trompas".

Assassinos!...
artur às 21:36 | link do post | comentar
Quarta-feira, 18.05.11

# 44

Que estava muito triste, que não lhe apetecia viver, que, lhe desse, agora mesmo, um AVC, não se importaria nada.

 

Sentia-se assim desde que abandonara o lar, deixando o marido e a filha. Aquela vida já não lhe interessava e, além disso, tinha conhecido o homem da sua vida.

 

Foi viver com ele.

 

Com ele e com a mulher e as suas duas filhas.

 

Espantado, perguntei-lhe como era possível estar a viver com o amante, a sua mulher e as filhas de ambos.

 

Respondeu-me, com naturalidade, que ela não sabia de nada.

 

Trabalha de noite... - esclareceu.

 

Depois de ela sair para trabalhar, eu vou para o pé dele; depois, quando ela está quase a chegar, volto para o sofá da sala.

 

Novas organizações familiares, não há dúvida.

artur às 21:58 | link do post | comentar
Sábado, 14.05.11

# 43

Entrou de rompante no gabinete de consulta.

 

Esclareceu que ia àquela consulta de urgência porque estava preocupado com as borbulhas que tinha na testa.

 

Constatei que eram três ou quatro pápulas sem importância que, talvez devido a muita coceira e às características específicas da péle de algumas pessoas de origem africana, tinham já um aspecto cicatrical.

 

Não me deixou falar e deu logo a sua interpretação da coisa:

 

"Eu acho que isto é dos chatos!"

 

Perante a mina expressão de espanto, esclareceu:

 

"É que eu tive relações com uma miúda, sem camisa, e fiquei com a pila inchada; mostrei ao meu irmão e ele disse-me que eram chatos! Depois, cocei a testa e fiquei com estas bobrbulhas!"

 

Sacanas dos chatos... a tomarem o lugar dos piolhos...

artur às 14:26 | link do post | comentar
Terça-feira, 03.05.11

# 42

O boné de pala e a T-shirt encardida, com o anúncio estampado ao Café Central, seriam suficientes para o classificar: era popular.

 

Todos o conheciam e à sua verve.

 

Gostava de palavras difíceis, de sete mil e quinhentos, como costumava dizer, no tempo do escudo.

 

Nos tempos livres, que eram muitos, lia A Bola - daí o gosto pelas palavras difíceis.

 

Nunca dizia bola, preferia esférico.

 

Nunca dizia jogo ou desafio, preferia prélio.

 

Mas, por vezes, as palavras difíceis tornavam-se complicadas, sobretudo desde que a patroa adoecera com uma neoplasia.

 

Desconsolado, dizia que ela tinha metáforas no fígado...

artur às 19:24 | link do post | comentar
Segunda-feira, 07.02.11

# 41

Tinha pouco mais de 30 anos, era tímido e não tinha namorada há alguns anos.

 

Veio queixar-se de algo inesperado: sempre que se masturbava à noite, não conseguia dormir depois.

 

Incrédulo, estive quase para lhe sugerir que se masturbasse só de manhã, mas confesso que tentei ignorar o sintoma e integrá-lo num panorama mais vasto de astenia, sintomas depressivos e tal e coisa.

 

Mediquei com ampolas bebíveis.

 

O placebo do costume.

 

Voltou passado um mês.

 

Tinha piorado: agora, sempre que se masturbava, ficava duas noites sem dormir.

 

Meio a brincar, sugeri-lhe uma namorada.

 

Riu-se.

 

E depois, não ficaria todas as noites sem dormir?...

# 40

Pesava 150 quilos e o seu grande sonho era colocar uma banda gástrica.

 

Inscreveu-se em várias consultas de obesidade mas era-lhe difícil seguir as regras: ou faltava à consulta de Psicologia, ou não fazia todas as análises que lhe eram solicitadas ou, se conseguia ultrapassar essas fases, acabava por faltar à consulta de Anestesia.

 

Mas assim que desistia de uma consulta, conseguia mover influências e meter as cunhas certas para se inscrever noutra consulta.

 

Meteu também uma cunha ao Divino.

 

Foi a Fátima e fez uma promessa, caso conseguisse levar uma consulta de Obesidade até ao fim, isto é, até à banda gástrica.

 

E a promessa consistia em tatuar, a toda a largura das suas imensas costas, o Santuário de Fátima, tal e qual como aparece nos postais ilustrados.

 

Demorou meses a deixar-se tatuar, ao mesmo tempo que frequentava mais uma consulta de Obesidade.

 

Quando a tatuagem ficou pronta, todos se admiraram.

 

O santuário estava tal e qual: escadarias, pináculos, janelinhas, tudo com um realismo impressionante.

 

O homem que o tatuara era um verdadeiro artista e ele podia orgulhar-se de ter, agora, o Santuário representado nas suas costas e, como as suas costas eram vastas, quase que se podia dizer que o Santuário estava com o seu tamanho natural.

 

E finalmente, foi operado.

 

Dois meses depois, tinha perdido 40 quilos.

 

E, nas suas costas, o Santuário de Fátima não passava de uma ermida engelhada...

artur às 18:50 | link do post | comentar
Segunda-feira, 22.11.10

# 39

Tinha crises de pânico desde os 30 anos.

 

Incapaz de lidar com elas e incapaz de fazer uma medicação regular, recorria à ajuda do pai.

 

Como era distribuidor de mercadorias, percorria o país de lés a lés, conduzindo uma carrinha comercial. E o pai, recém-reformado, ia com ele.

 

Com o pai sentado no banco a seu lado, sentia-se seguro e o pânico abrandava.

 

Andou nessa vida cerca de 6 anos até que conheceu a que viria a ser sua mulher.

 

Foi ela quem lhe acalmou os nervos e o obrigou a uma medicação mais regular.

 

As crises de pânico melhoraram.

 

Prescindiu da companhia do pai.

 

Arranjou um emprego melhor, como motorista de transportes públicos de longo curso.

 

Certo dia, entre Setúbal e Almada, as cólicas abdominais eram tão intensas que julgou que não conseguiria aguentar as fezes.

 

Lá chegou a uma estação de serviço, pediu desculpa aos passageiros e foi aliviar-se.

 

Foi quando começaram as diarreias.

 

Agora, antes de iniciar cada percurso tem que ir meia dúzia de vezes à casa de banho e já as conhece todas, ao longo de todas as carreiras.

 

artur às 18:14 | link do post | comentar

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  • Já tinha saudades, Sr. Doutor. Obrigado.
  • Mais refinado, agora. E até estuda Direito!
  • Este eu também conheci!Grande cromo.

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